Aonde vão as nossas tristezas?


Photo by Mantas Hesthaven



Estamos acostumados a celebrar neste dia as tantas pessoas queridas que foram embora desse mundo físico (dia de finados). E se além disso, a gente também criasse um ritual pra honrar todas as inúmeras mortes simbólicas que tivemos?

Em especial nesse ano de 2020, onde além das pessoas próximas e outras nem tanto, fomos mais do que convidados a nos despedir das formas de funcionar de antes. Tivemos que aprender um novo convívio social, novas rotinas, novos hábitos, novas formas de interações com as pessoas e especialmente com a gente mesmo.

Não foi (e ainda não está) sendo fácil ficar na posição de aprendiz pra tantas coisas ao mesmo tempo. A forma que fazíamos antes, não funciona mais agora. Nossos hábitos, precisaram ser revistos. A forma que pensávamos sobre nossa vida ou nossos trabalhos, mudaram. Os nossos relacionamentos (familiares, profissionais, afetivos) precisaram se adaptar e nesses ajustes, todas aquelas rachaduras que vinham sendo camufladas ou ignoradas há tempos apareceram de uma só vez, com força suficiente para romper e fazer desaparecer relações frágeis, sem nenhum questionamento. Será que sou eu ou será que é o outro? Somos todos nós, sem culpados, cada um com a sua contribuição igualmente para o problema e para a solução.

Mortes, rupturas, perdas, fins de fase nos pressionam a novos olhares.

Vemos coisas que não conseguíamos ver antes.

Enxergamos obviedades que antes eram absurdamente absurdas.

Nos percebemos a princípio aliviados, depois aflitos e culpados, depois em dúvida se era pra ser assim mesmo, se foi o certo, se foi o justo. Damos passos pra trás tentando buscar novamente um espaço seguro no meio do monte de novidades incertas. Só que não somos mais os mesmos. Não existe mais segurança em fazer igual e tentar caber onde não cabemos mais. E logo nos colocamos novamente, nesse novo passo, sempre pra frente, mas jamais de forma linear como achamos que seria.

De uma hora pra outra, sem avisar – morte sendo morte - ela vem, faz o seu serviço aqui, e vai embora; reaparece ali, faz o que veio fazer, e se retira. É impressionante o quanto age de forma impecável: dizem que não falha, que não se adianta e nem se atrasa, mas ainda assim tentamos ter algum controle sobre o incontrolável:

“Foi cedo demais!”

“Por que essa pessoa? Por que agora?”

“Eu tinha tantos planos!”

“Tinha tudo pra dar certo aqui!”

“Não posso ter me enganado tanto!”

É... não é fácil soltar, deixar ir, mesmo que já tenha ido. Quando largamos, geralmente é porque já foi há um bom tempo e estávamos apenas resistentes em nos render ao fim. E nos machucando nesse segurar mais um peso morto que se somou a tantos outros.

Com pessoas vemos mais facilmente a partida: é fato que o corpo desliga e elas partem.

Mas e quando são os nossos sonhos que morrem?

E quando nossos relacionamentos, mesmo que haja amor e respeito, não vingam?

Quando os planos e expectativas que tínhamos desaparecem?

Onde ficam as nossas certezas profissionais?

A garantia dos projetos que idealizamos?

E quando descobrimos partes nossas que já estão desatualizadas, mas continuamos segurando? Jeito de pensar, formas de funcionar, medos, “certezas”, preconceitos, quem achamos que somos, quem queríamos ser, pessoas que queríamos ter por perto e agora não fazem mais sentido, pessoas que jamais imaginamos... Não bastasse descobrir isso em nós, tem também as partes dos outros que estão passando pelo mesmo... Socorro.

Cada pedacinho desse precisa de um “ritual” de soltura. E cada pedacinho nosso que mexemos, pede atualização não só do nosso novo eu, mas também desse novo e do velho eu em relação aos outros e ao mundo. Algumas atualizações fazemos inconscientes e não nos ocupam espaço mental, emocional nem energético. Já outros, vamos acumulando em nós até onde suportarmos, até pegarmos pra lidar. SIM: toda perda que não processamos adequadamente fica guardada em nós. Ah sim, muitas vezes preferimos acreditar que isso é uma grande besteira: melhor achar que é besteira do que precisar lidar com as perdas. E quem gosta de perder?!

Quando sentimos qualquer desconforto o que a gente normalmente faz é buscar distração: corremos pra fora: festas, com pessoas, em redes sociais, bebidas, amigos, família, academia... Isso alivia? Claro que sim e ainda bem que temos por onde deixar vazar essa pressão gigante, senão a gente explodiria – como muitas vezes explode (ou implode!). Só que isso tudo só alivia, não resolve. Agora me fala: pra onde vão tristezas: pra festa ou pra dentro de nós?

Sabe quando do nada vem uma vontade de chorar, ou até uma raiva?

Muito disso pode ser por essas partes mortas que acumulamos em nós e que estão ali, gritando para serem soltas e libertas. Podem ser coisas ou emoções ligadas a outras pessoas ou eventos, mas que deixamos pendentes em nós, e se estão em nós, se não forem cuidados, vão nos assombrar.

É como se fossemos colecionadores de tristezas e perdas. Só que, assim como após a morte física, elas precisam ser veladas e enterradas/ cremadas. Não desaparecem com mágica - seria ótimo se a gente funcionasse com um click... (seria??) E quanto mais postergamos os trâmites necessários – porque incomodam demais – mais eles deterioram e começam a cheirar mal dentro da gente, até uma a uma, lidarmos com nossas perdas físicas, emocionais, mentais, simbólicas, energéticas, sociais, familiares, relacionais, profissionais...

Duas coisas são certas:

1) nenhuma tristeza vai embora sozinha.

O tempo NÃO cura: ele nos dá espaço pra escolhermos quando vamos olhar pra cada uma dessas perdas e nos despedir da dor que ela traz. É justamente a dor que precisamos liberar pra continuarmos deixando vivos em nós a honra por ter aquela pessoa ou aquele sonho ou aquela parte de nós, em nós.

2) a gente não se engana

Fingir que passou ou apenas o desejo de passar pelo processo não resolve. A gente bem que tenta se enganar e dizer que superou isso ou aquilo quando por dentro sabe o tanto de incômodo que ainda existe em relação aquele assunto ou pessoa... se tem desconforto, tem pendência a ser resolvida

Mortes fazem parte da vida. Parte da RENOVAÇÃO da vida.

A dor vem do apego e do controle que gostaríamos de ter da vida. Soltar é se permitir renascer e rejuvenescer. É a dor do parto que dá à luz, acessando as belezas do que nos trouxeram até onde chegamos, que nos criou vínculo com aquela pessoa ou situação, que nos mostra a honra por pedaço de vida vivida e pela nova vida, novo cenário, novos ares desse novo momento.

Entender que se uma fase se encerrou não quer dizer que não tenha dado certo, só quer dizer que acabou e é tempo de novos ares e mudanças. Nossas.

Fins vão acontecer.

Se evitamos ou negamos, aumentamos.

Se ficamos, aumentamos.

Se atravessamos, resolvemos.

Desconfortável vai ser.

Mas que seja. Que seja no melhor tempo pra você. Mas que assim seja.



PAULA CASTRO

acolhimento emocional, consciência e profundidade #autoamor

✍ | autora "o amor da sua vida está aqui" #relacionamentoabusivo

✍ | co-autora "registros femininos", "além do céu, além da terra", "quarentena: diário do confinamento"

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